04/02/2017

Lições de vida.

Lembro-me muitas vezes da minha colega de quarto do período de internamento. Eramos quatro, todas estávamos lá por motivos diferentes mas com um objectivo em comum: aguentar o máximo de tempo possível o bebé cá dentro. Todas menos a minha colega, grávida de gémeos. Era uma gravidez de risco, ganhou diabetes gestacionais, desde o inicio levou um sermão sobre os riscos de uma gravidez gemelar mas mesmo assim queria que os bebés nascessem à força toda (e era vê-la a andar corredor acima, corredor abaixo a ver se acelerava o processo!) porque já estava cansada, já não podia com a barriga, porque já estava internada há meses, porque a tia também teve gémeos com menos semanas e correu tudo bem e porque assim e porque assado. Os médicos na sua ronda diária já reviravam os olhos com a lengalenga dela. E nós também. As suas queixas eram compreensíveis, mas há que ser mais paciente por um bem maior. Digo eu. E apesar de ter mexido com o meu (nosso) sistema nervoso - e olhem que era muito difícil, nunca usei a desculpa "hormonas de grávida" porque, pelo contrário, a gravidez tornou-me mais "bem-disposta", com melhor feitio!-, ela acabou por me dar duas lições de vida.

Primeiro, a expressão cuidado com aquilo que desejas nunca fez tanto sentido. Já era mãe de dois rapazes crescidos, foi à procura da menina. A vida fez-lhe a vontade mas deu-lhe mais um bónus: outro menino. Um casalinho de gémeos. Agora já deve ter assimilado, mas na altura ela não ficou lá muito feliz.

Segundo, não basta desejarmos muito uma coisa para ela se concretizar, há coisas que não estão nas nossas mãos ou que não dependem exclusivamente da nossa boa vontade. Quem torceu muito para levar a gravidez até ao fim foi em primeiro. Eu fui a terceira, deu para ouvir os comentários da minha colega: "com barrigas mais pequenas e já lhes fazem um parto". (Nesta altura já tinha desistido de explicar o porquê delas irem em primeiro e de apelar à consciência dela para se manter até às 37 semanas). Nem quero imaginar o que ela disse na noite em que desci para o bloco de partos a queixar-me de dores lombares e nunca mais subi. Restou ela, a que queria se despachar, a que desejava não chegar às 37 semanas. Não sei se chegou lá, mas se tivesse que apostar diria que sim, já faltava tão pouco (estava já com 36!) e como a vida não é como uma pessoa quer, lá as enfermeiras e os médicos tiveram que a aturar por mais uma semana. E para bem dela e dos bebés, espero que tenha cumprido a meta e esteja tudo bem com eles.

É engraçado como este curto convívio tornou-se numa situação caricata, que me faz extrapolar a situação da minha colega para outros contextos. Há pessoas que passam pelas nossas vidas para nos ensinar grandes lições, ou, simplesmente, para exemplificar o que já sabíamos.

2 comentários:

A Pimenta* disse...

Eu costumo dizer que "nunca ninguém está bem com a vida que tem". E sim, concordo quando dizes que há pessoas que nos aparecem pelo caminho para nos ensinar algo ou fazer ver algo.

Maria disse...

a vida as vezes prega-nos partidas :)